domingo, novembro 03, 2013

Não está acontecendo aqui, mas está acontecendo agora





 

A organização de direitos humanos Anistia Internacional criou uma campanha que visa chamar a nossa atenção para problemas globais e atuais como a tortura, o abuso de direitos humanos, o tráfico de pessoas, a prisão injustificada e o trabalho escravo.
Ainda pouco vi, pela primeira vez, uma das fotos da campanha que diz: “Não está acontecendo aqui, mas está acontecendo agora” e senti como se tivesse levado um soco no estômago. As razões são muitas, mas a principal, sem dúvida, foi o fato de que, minutos antes, eu havia lido nos principais jornais do Brasil sobre o show do Justin Bieber em São Paulo.

O atraso de mais de uma hora, o playback, a falta de interação com o público, a saída do palco (depois de uma garrafa de plástico ter atingido sua mão) sem despedida e sem volta, as fãs obstinadas que acamparam 3 meses para garantir um bom lugar na multidão, as fãs abastadas que pagaram 2.800 reais por um pacote meet and greet que permitiu que elas vissem o cantor apático e indiferente e tirassem uma foto com ele em “3 segundos” – palavras delas, não minhas.

“3 segundos…” eu pensei. 2.800 reais (4 salários mínimos) por 3 segundos ao lado de um meninote que nem se preocupa em ser simpático com as fãs, nem em tocar ao vivo, nem em retribuir, de alguma forma, por menos que seja, o amor em forma de histeria que  recebe onde quer que vá.
Ah, mas vai ver a fã decepcionada exagerou. Não foram 3 segundos, foram 30 segundos, ou 3 minutos… Ainda que fosse: não é pouco tempo para justificar tanta grana? E não é muita grana pro cara ainda se achar no direito de não ser simpático? Não só com quem pagou 4 salários mínimos pelos 3 segundos do tempo dele, mas com quem pagou metade de um salário mínimo para ir ao show dele, e com quem acampou 3 meses para tentar ficar mais próximo do palco dele. E o pior de tudo é que ele sabia que essa meninada toda tava lá, se revezando, comendo marmita, usando banheiros químicos nojentos por 90 dias. Tanto sabia que tweetou sobre o assunto antes mesmo de vir ao Brasil.

Daí eu fico pensando: quando foi que ele parou de se importar? Foi depois do primeiro milhão de dólares? Depois dos primeiros 10 milhões? 100 milhões? Depois que não dava mais nem para contar quanta grana foi parar na conta dele, antes mesmo dele atingir a maioridade?

Quando foi que elas, as fãs, pararam de se importar? Porque pagar 280 reais (que pelo que vi é o mínimo que custa um ingresso para o show dele) para depois sair jogando garrafa no “cantor”, não faz sentido algum. Será que foi só uma que acordou do sonho e quis se vingar? Será que a febre vai continuar?
E quando foi que nós paramos de nos importar? Não com ele, mas com o resto do mundo. Quando foi que acampamos por 3 meses em algum lugar por uma causa que ajudasse ao menos uma das milhões de pessoas que seriam salvas por esses mesmos 2.800 reais? Quando foi a última vez que usamos 3 segundos do nosso tempo para ajudar alguém? Quando foi que o amor ao Bieber passou a valer mais do que o amor ao próximo?
  

Fonte das imagens: Where good grows   
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