domingo, novembro 20, 2011

Michael Jackson não plantou acácias


Para onde devemos olhar? Para qual sentido ou direção temos que nos concentrar para que não percamos o rumo, para que não terminemos como cestos de lixo? Qual deve ser o nosso cotidiano e quais as ações que valem a pena? E quando devemos virar as costas e não olhar para trás?

A indústria cultural e a mídia vinculada ao grande capital absorvem a atenção das pessoas para que elas não percebam nada de realmente importante. Quando ainda não havia internet um conhecido meu, dono de uma banca de jornais, adorava quando alguma “celebridade” morria, as vendas de revistas, pôsteres e fotografias mais que duplicavam o faturamento do mês.
Enquanto nos preocupamos em contar o tempo o perdemos. Ao quantificar o que acumulamos, nos empobrecemos. Ao nos compararmos em importância e grandeza com nossos semelhantes, nos tornamos diferentes e apequenados. Ao medirmos a nossa beleza, nos enfeamos.

Enquanto as aparências ocupam muitas horas dos nossos dias e noites, nossa essência se dilui em uma existência que provavelmente não será digna de boas lembranças no futuro.

Enquanto as televisões do mundo, e do Brasil, se ocupavam em fornecer detalhes insignificantes e desnecessários sobre Michael Jackson e sua morte, no mesmo domingo à noite, um avião tentava aterrissar em Tegucigalpa, levava a bordo o Secretário Geral da OEA (Organização dos Estados Americanos) e o Presidente deposto de Honduras que buscava retomar o seu governo para o qual fora democraticamente eleito, fato este importantíssimo como referência de comportamento das atuais democracias e das forças armadas em toda América Latina.
Enquanto alguns em Roraima fazem propaganda de que agronegócios com monoculturas extensivas em latifúndios é bom, a Revista Exame traz uma reportagem que ventila a volta da colonização nos países de terceiro mundo. Trata do novo “loteamento” que estão fazendo na África, onde milhões de hectares, em vários países, estão sendo utilizados por grupos estrangeiros (com o apoio dos governos locais) para a produção de grãos e biocombustíveis às custas da destruição ambiental e da fome das populações nativas. Esta situação já derrubou, inclusive, o Presidente de Madagascar.

Enquanto Roraima discute se a mineração seria boa ou má para nós, e alguns afirmam que os índios ( e seus supostos amigos estrangeiros) estariam de olho no nosso subsolo, a Revista Carta Capital traz reportagem em que gente do “calibre” de Daniel Dantas tem mais de 1000 concessões de exploração no Brasil, e adivinha em que lugar ele também quer explorar? Em Roraima. Segundo a reportagem, Daniel Dantas não retira os minérios encontrados, ele os localiza e coloca à venda os direitos minerários, e, é claro, algumas empresas estrangeiras já compraram. São os índios, então, que querem internacionalizar a Amazônia e entregar o subsolo aos estrangeiros?

Enquanto novas plantações de acácias mangium são feitas na região da Serra da Lua, no município de Bonfim, destruindo ainda mais o patrimônio natural e paisagístico do lavrado, algumas dessas plantações são utilizadas para a “compensação” de áreas nativas degradadas.

Ocorre ainda que as antigas acácias plantadas em regime de monocultura estão sendo mortas por fungos e por fogo, e, se por um lado elas não têm, e não terão, aproveitamento econômico em Roraima, a não ser para “ludibriar” certas autoridades, por outro há estudos em andamento que dão conta de que sozinha, de forma esparsa, a acácia mangium pode ser uma espécie invasora e extremamente perigosa para o lavrado, já que ela se reproduz sem grande esforço, e brota justamente na sombra de árvores nativas, que consequentemente poderão morrer sem a devida radiação solar de que necessitam, já que as acácias se tornam rapidamente mais altas que os caimbés e cajueiros.
Enquanto viramos as costas para a participação política honesta e transformadora, Roraima segue os mesmos caminhos que levaram outras regiões do país a péssimos índices de desenvolvimento humano (IDH).

Gostam da monocultura extensiva? Vejam como vivem os habitantes do sul do Piauí e do Maranhão, onde grandes lavouras foram implementadas nos anos 1980. Aproveitem e vejam como está a classificação do PIB/Per Capita desses Estados. Plantar cana-de-açúcar é bom? Sempre foi para os donos da usina. Como vivem os trabalhadores da cana?

Gostam de mineração? O que sobrou para o Amapá e para as populações que trabalharam na Serra do Navio retirando manganês durante décadas. Aproveitem e apontem uma só região no planeta em que a população ficou rica com a exploração mineral em suas terras.
Os filósofos existencialistas sempre disseram que a vida é feita de escolhas, mas elas não se referem somente a dilemas e a opções pessoais. As escolhas também dizem respeito ao compromisso que temos com o nosso tempo e com o lugar em que vivemos, às escolhas éticas, ao trato dos negócios públicos e à coerência, que é a virtude que devemos buscar em relação aos nossos princípios.
Ao escolhermos dar atenção a esse mundo paralelo das inutilidades que nos apresentam, tudo passa a se tornar fantasioso e irreal. A vida se torna uma distração, um entretenimento que nos distancia da realidade, e, então, enquanto achamos que matamos o tempo compartilhando do luto virtual que envolveu a morte de Michael Jackson, o tempo é que nos mata, e os nossos problemas próximos e distantes seguem se acumulando, alguém descobre uma nova maneira de se apropriar do que nos pertence e algumas novas acácias são plantadas.


Autor: Jaime Brasil Filho
(defensor Público)

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