quarta-feira, dezembro 01, 2010

PARA LER MAIS É PRECISO ESCREVER MELHOR (Parte I)

Autor: Jair Ferreira dos Santos

Certo dia, no início dos anos 90, o programa matinal da TV Globo dirigido ao público infantil mostrava crianças disputando um jogo qualquer, mas quando a brincadeira chegou ao fim aconteceu algo chocante: o garoto que teve o pior desempenho recebeu, ou melhor, foi castigado com um livro.

O episódio dispensa comentários quanto ao seu significado: no Brasil, ler (mas também escrever) tem qualquer coisa de insensatez heróica, dado o ambiente secularmente pouco receptivo, para não dizer refratário, à cultura letrada. Sabemos quais são as causas genéricas desse tratamento: o obscurantismo português, o elevado preço dos livros, o ensino sem qualidade, os professores mal pagos, as crianças que chegam à escola já impregnadas pela ideologia dos meios massivos, a vassalagem dos autores, sem nenhuma capacidade de barganha, aos editores – a lista não é pequena. Mas se quisermos obter um retrato menos impressionista da situação, seria oportuno refletirmos sobre alguns números preocupantes. No Diagnóstico do Setor Livreiro no Brasil, elaborado em 2007 pela Associação Nacional de Livrarias, podemos pinçar ao acaso as seguintes informações:
•Existem no Brasil 2600 livrarias; segundo a UNESCO, países com a nossa população deveriam ter no mínimo 17000.
•O estado de Rondônia, com 620.000 habitantes, dispõe apenas de 4 livrarias.
•Para universalizar-se entre nós, o livro deveria custar um terço do preço atual por exemplar.
•Somente 26% dos brasileiros alfabetizados conseguem ler e entender um texto longo (de 20 páginas, digamos, sendo generosos).
O cenário sugerido por esses números toca o dramático. Pensemos nos deficits econômicos, sociais e culturais decorrentes do último item: se apenas 26% do segmento alfabetizado conseguem ler e entender um texto longo, quantos, nesse contingente, estariam habilitados a escrever algo semelhante? Imaginemos o impacto dessas deficiências sobre as profissões (a propósito, em janeiro de 2008 somente 23% dos inscritos no exame da OAB se mostraram aptos ao exercício da advocacia). Visualizemos seus efeitos nas relações da vida cotidiana e na própria literatura, tão marcada aliás pelos falares nacionais. Tamanha restrição de poder comunicacional, ao mesmo tempo que tende a replicar a concentração de renda, desdobra-se no seu domínio complementar (nos 74% restantes de alfabetizados) em exclusões de acesso e expressão no plano social.

Não são, como vimos, desconhecidas as variáveis a determinar esse quadro, porém a mais influente delas consiste, acreditamos, numa falha histórica: o Brasil transitou da cultura oral para a cultura eletrônica e visual sem ter passado pela escrita, ou seja, pelo livro. Afastando-se da trajetória seguida pelas nações bem-sucedidas, que investiram pesado em educação para atender com mão-de-obra qualificada às demandas de seus parques produtivos, o país não viu a cultura letrada sedimentar-se em extensão ou em profundidade em suas populações, e a hostilidade a ela continua viva. Pesquisa recente no Rio e em São Paulo mostrou que 15% dos universitários das nossas duas maiores cidades nunca leram um livro. Pela mesma época, um figurante do reality show BBB-8 declarou, com orgulho e o apoio dos demais participantes: “Graças a Deus, nunca fui desses de ler livro”. Por que, invocando a conivência divina, ele desdenha os livros? Sem medo de errar, é porque nosso letramento, afetado agora por concorrentes ultrapoderosos como o computador, a internet, os games, a tv a cabo, é deficiente, precário, pobre em sedução e em promessas como em recompensas, parecendo ainda congratular-se com essa condição.

Esta simples coleta de dados mais ou menos aleatória aponta para uma conclusão desanimadora: por aqui, o letramento não leva à cultura letrada, contradição que beira o surrealismo; na verdade ele gera milhões de analfabetos funcionais, gente com um desempenho entre o severamente limitado e o sofrível no uso da língua portuguesa, falando ou escrevendo.



Fonte:

http://www.estacaodasletras.com.br/arquivos/artigos/lermais.html
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