domingo, novembro 14, 2010

A cova dos golfinhos


Era uma vez uma série de TV americana chamada Flipper* que fez com que meio mundo desejasse, pelo menos uma vez na vida, ver, tocar, beijar e brincar com um golfinho. Então, um lobo mau chamado capitalismo decidiu se aproveitar do imaginário coletivo e espalhar parquinhos aquáticos por todo o mundo, onde, nos bastidores, golfinhos são torturados, digo, treinados, até aprenderem a equilibrar bolas, fazer piruetas e a parecem felizes 24 horas por dia, à base de muitas drogas que aliviam o stress e as úlceras que eles desenvolvem em cativeiro; mas quando as cortinas se abrem, lá estão eles fazendo a alegria dos baixinhos e baixinhas que pagam uma grana para ver os golfinhos, que são explorados pelos donos dos parquinhos até ficarem ou continuarem ricos.

Para manter todos esses parquinhos abertos o capitalismo teve que garantir que todos eles tivessem um, ou vários, golfinhos de estimação em todas as muitas apresentações diárias, e o tráfico de golfinhos passou a ser um negócio tão lucrável quanto os parquinhos, principalmente no Japão.

E para piorar a situação, algumas vilas de pescadores, que capturam golfinhos para mandar para os parquinhos, decidiram também vender a carne dos golfinhos que morriam durante a carnificina, digo, pescaria, dizendo que no Japão é assim mesmo: todo mundo come golfinho e baleia, e que a cultura japonesa deve ser respeitada. O que eles esqueceram de contar é que ganham 600 dólares por cada golfinho assassinado que vai parar (fresco, congelado e enlatado) nos supermercados japoneses, e até 150.000 dólares por um golfinho vivo e muito espertinho que consiga chegar são e salvo no parquinho da criançada.

O governo japonês, por sua vez, ocupado comemorando o lucro da venda da carne de golfinho, esqueceu de informar os japoneses que a carne de golfinhos é repleta de mercúrio, que consumido em grande quantidade, pode causar, entre outras coisas, paralisia cerebral.

Tudo isso pra dizer que o treinador do Flipper (que na verdade não era um só golfinho, mas sim 5 golfinhos diferentes treinados pelo mesmo cara para parecem um só na série de TV) um dia sentiu tanto remorso por ter começado tudo isso que tratou de ir pro lado dos bonzinhos e dedicou os seus últimos 35 anos de vida ao combate do mercado negro e cativeiro de golfinhos em todo o mundo. E a trajetória dele, acompanhado de uma equipe de especialistas de diversas áreas (biólogos, mergulhadores, ativistas ambientais, cientistas e mais um caminhão de gente) foi registrada em uma incrível documentário que faz qualquer pessoa que seja dotada de um coração (que ainda bate) querer soltar todos os golfinhos do fundo em alto-mar.

The Cove (A cova) ganhou o Oscar de melhor documentário no começo deste ano e já conseguiu quebrar algumas pernas do alarmante esquema de corrupção moral, econômica e ambiental denunciado no filme. O resto, só você pode mudar. Alugue, compre, assista, indique, dê de presente, assine petições ambientais de proteção ao golfinho, pare de freqüentar os malditos parques aquáticos de golfinhos, e, se for ao Japão, limite-se ao arroz de sashimi!
Nicole Rodrigues

"Flipper*
Flipper foi uma série de TV norte-americana de 88 episódios, de 25 minutos cada, criado por Ricou Browning e Jack Cowden e foi apresentado originalmente de 19 de setembro de 1964 até 1 de setembro de 1968 pela rede NBC, nos Estados Unidos. Esta série é uma adaptação ou um spin-off do filme Flipper de 1963.

Na realidade Flipper nunca existiu. Para interpretar o papel foi necessário cinco golfinhos fêmeas, por os machos geralmente apresentam marcas de dentes na parte de cima, devido as lutas para conseguir as fêmeas e os produtores necessitavam que os golfinhos tivessem corpos impecáveis.

Na década de 60, quando a série se tornou um sucesso, um golfinho treinado tinha um custo de 400 dólares e todos queriam ter um. "
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