sexta-feira, outubro 08, 2010

A política colombiana Ingrid Betancourt relata seus seis anos de sequestro com as Farc no livro "Não há silêncio que não termine"

Durante seis anos, Ingrid Betancourt ficou sob o poder das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). A política colombiana relatou seu convívio com os sequestradores e os companheiros prisioneiros em "Não Há Silêncio que Não Termine", que será lançado pela Companhia das Letras no dia 17 de setembro.

Na obra, Ingrid conta sua experiência como prisioneira da guerrilha. Submetida à fome, doença e humilhantes condições, ela descreve os momentos mais dramáticos de sua prisão, sem deixar de lado as vezes em que tentou escapar, mas era recapturada.

A autora relembra a rotina do cativeiro e revisita os diversos acampamentos em que foi mantida prisioneira.

O sequestro chegou ao fim em julho de 2008 e o fato encerra o livro com um tom esperançoso, preocupado com a situação dos reféns que ainda estão em poder das Farc e que poderão ser libertos um dia.

Graduada no Institute d'Études Politiques de Paris, Ingrid era candidata à presidência da Colômbia nas eleições de 2002, quando foi sequestrada pelas Farc. Educada na Europa, a colombiana resolveu se dedicar aos problemas de seu conturbado país.

Acabou se elegendo sucessivamente deputada e senadora. Tanto que fundou, em 1998, o partido Oxigênio Verde, para combater a corrupção da política colombiana.

Nos trechos abaixo, Ingrid se mostra acuada, mas também corajosa diante de seus sequestradores e companheiros de cativeiro.

O acampamento entrava numa atividade febril. Uns checavam os nós de suas barracas, outros iam correndo recolher a roupa que secava num quadrado ensolarado, alguns, mais previdentes, iam aos chontos, para o caso de a tempestade se prolongar. Eu olhava para aquela agitação com um nó na barriga de tanta angústia, rezando para que Deus me desse forças para ir até o fim. "Esta noite estarei livre." Repetia essa frase sem parar, para não pensar no medo que retesava meus músculos e os esvaziava de sangue, enquanto fazia a muito custo os gestos mil vezes previstos em minhas horas de insônia: esperar que anoitecesse para construir o boneco, dobrar o grande plástico preto e enfiá-lo dentro da bota, abrir o pequeno plástico cinza que me serviria de poncho impermeável, verificar se minha companheira estava pronta. Esperar que a tempestade caísse.

[...]

Levantei-me. Diante de mim, a mata cerrada e aquela chuva torrencial que viera atender a todas as minhas preces dos dias anteriores. Eu estava do lado de fora, não havia recuo possível. Precisava agir depressa. Assegurei-me de que o elástico que prendia meu cabelo estava no lugar. Não queria que a guerrilha encontrasse o menor indício do caminho que eu ia pegar. Devagar, contei: um... dois... No três, parti, em frente, para a selva. Eu corria, corria, tomada de um pânico incontrolável, esgueirando-me das árvores por reflexo, incapaz de ver, de esperar, de pensar, sempre em frente, até a exaustão.

Enfim, parei e dei uma olhada para trás. Ainda conseguia ver a entrada da selva como uma claridade fosforescente entre as árvores. Quando meu cérebro voltou a funcionar, me dei conta de que estava recuando automaticamente, incapaz de me resignar a partir sem Clara. Relembrei, uma a uma, todas as nossas conversas, repassando as recomendações combinadas entre nós. Uma em particular me vinha à memória e a ela eu me agarrava com esperança: se nos perdêssemos na saída, nos encontraríamos nos chontos. Tínhamos falado disso uma vez, de passagem.

Felizmente meu senso de orientação parecia funcionar bem. Podia me perder numa grande cidade quadriculada, mas na selva eu encontrava meu norte. Saí exatamente na altura dos chontos. O lugar, é claro, estava vazio. Olhei enojada para a nuvem de bichinhos acima das fossas, para minhas mãos sujas, minhas unhas pretas de lama e aquela chuva que não parava. Não sabia mais o que fazer, estava prestes a cair no desespero.

Ouvi vozes e depressa me refugiei na densidade da mata. Tentei perceber o que estava acontecendo dos lados do acampamento e o rodeei para me aproximar da jaula, protegendo-me, bem no lugar de onde eu tinha saído. O temporal se transformou numa garoa persistente, que permitia que os sons se propagassem. Chegou-me a voz forte do comandante. Impossível entender o que dizia, mas o tom era ameaçador. Uma lanterna de bolso iluminou o interior da jaula, depois o feixe de luz entrou com violência pelo buraco das tábuas e percorreu a clareira da esquerda para a direita, passando a poucos centímetros de meu esconderijo. Dei um passo atrás, suando em bicas, com vontade de vomitar, o coração em disparada. Foi quando ouvi a voz de Clara. O calor que me sufocava deu lugar, sem transição, a um frio mortal. Todo o meu corpo começou a tremer. Eu não entendia o que poderia ter acontecido: por que ela fora capturada? Outras luzes apareceram, ordens circulavam, um grupo de homens munido de lanternas se dispersou: alguns inspecionavam as paredes da jaula, os cantos, o teto. Pararam perto do buraco, depois iluminaram a entrada da mata. Vi quando falaram entre si.

[...]

Sozinha, encharcada e trêmula, contemplei aquele mundo que já não me era acessível. Era tão tentador confessar-me vencida e voltar ao seco e ao calor! Contemplei aquele espaço iluminado, pensando que não podia me afligir com minha sorte, e repeti para mim mesma: "Tenho de ir embora, tenho de ir embora, tenho de ir embora!".

Fontes:

Texto:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/798451-em-relato-biografico-ex-refem-ingrid-betancourt-revisita-acampamentos-das-farc-leia.shtml

Sinopse do livro:
http://livraria.folha.com.br/catalogo/1151622/nao-ha-silencio-que-nao-termine

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