domingo, julho 11, 2010

FANTASIA HOLLYWOODIANA (diga não a agressores, sejam eles famosos ou não).


Não é a primeira vez que acontece. Foi a mesma coisa com o palhaço do Cris Brown que espancou e quebrou o nariz da namorada, a deixou sangrando na beira de uma estrada e fugiu. Cansei de ler as defesas das "fãs" alucinadas colocando a culpa na Rihanna: "Ahh, mas ela deve ter tirado ele do sério mesmo". "Ela se veste feito puta, o cara não aguentou". "Coitado dele, explodiu.". Ou ainda o inacreditável: "Errar é humano, quem não erra?".

Errar é uma coisa. Insultar é outra. E espancar é outra ainda maior.

Daquela vez eu fiquei calada, porque senti que eu iria vomitar tudo em palavras, escrevendo um livro inteiro sobre a pena que eu sinto dessas mulheres que provavelmente nunca levaram um tapa na cara de um namorado, marido ou amante, e que não conhecem ninguém que seja próximo o bastante e que tenha sido vítima de violencia doméstica, para humanizá-las e fazê-las cair na real.

Hoje voltou a acontecer, mas dessa vez é diferente: porque percebi que se a minha intenção, ao postar uma história de abuso domestico cometida por alguém (seja famoso ou não), é exatamente combater o silêncio, eu não posso me reservar o direito de ficar calada quando recebo comentários em defesa de agressores baseados única e exclusivamente em idealizações de fãs fanáticos.

Então o recado de hoje vai para a senhora Lilian que nos escreveu, e creio que servirá de template para as futuras fãs fanáticas do Mel Gibson. Digo fanáticas, porque as fãs normais, que o admiram no cinema, mas conseguem seprar a realidade da fantasia e enxergar a um palmo do nariz, não precisam ler até o fim.

"Olá,

Você, sem sombra de dúvidas é uma grande fã do Mel Gibson, já que já encontrou esse post que foi postado em menos de 4 horas, sem sequer seguir este blog, e que até criou um blog em homenagem ao Mel Gibson (!). Até aí: não há nada de errado. Se você o admira como ator, gosta dos filmes em que ele atuou e dirigiu, e quer continuar o apoiando artisticamente: a opção é sua. Já que o talento dele não está em questão.

Contudo, é muito importante que você aprenda a separar a celebridade da pessoa em questão na vida privada. Assim como separar a sua impressão idealizada de um ator belo, atraente e galante que foi tão exposto na telinha, com a possível e provável real e não-agradável personalidade dessa mesma pessoa quando ela está longe das câmeras.

O áudio está aí, pra todo mundo escutar. O que o Mel Gibson disse, ou melhor, berrou ao telefone, não pode ser justificado pelo fato de que ele é um bom ator, diretor, religioso, que foi casado durante anos com a mesma mulher, de quem se separou por vontade própria para ficar com a amante, pelo menos 20 anos mais nova do que ele. Não se pode esquecer que ele traiu e largou a mulher de tantos anos porque quis. Assim como assumiu e engravidou a amante porque quis. Assim como insultou e agrediu a moça porque quis. A questão que se expõe aqui no Acefalando não é moral. Cada um namora, casa e separa com e de quem quiser, quando bem entender. A questão destacada é a forma, o método escolhido por Mel para conduzir a sua última relação e separação. Ele agrediu (se não for provado que o fez fisicamente, certamente já está provado que o fez psicologicamente) a mulher com quem se relacionou nos últimos anos e com quem teve uma filha.

Se Oksana é uma prostituta, uma dublê de cantora interessada em fama, ou apenas uma moça que era fã do Mel Gibson, por quem nutria fantasias, e que um dia teve a chance de se relacionar com ele, ou não, isso não faz a menor diferença no fato de que ela sofreu abuso. Oksana foi casada com um outro ator famoso antes de se envolver com Mel Gibson, é relativamente conhecida como cantora em seu país, e trabalhava como modelo de lingeries. Mel Gibson é um homem com mais de 50 anos que deveria ser capaz de discernir e decidir o tipo de pessoa que ele deseja em sua vida. E se ele a escolheu como amante, e depois como namorada, não temos o direito de jogar toda a responsabilidade dos abusos dele na situação, condição e histórico de vida dela.

Quem se envolveu com ela foi ele. Quem tem acessos de fúria é ele. Quem enfrenta o alcoolismo, que se envolve em acidentes de carro, em polêmicas anti-semistas e racistas e que, agora, é acusado de ter abusado da parceira que escolheu é ele.

O que é inaceitável é que nós, especialmente as mulheres, continuemos a justificar qualquer tipo de abuso doméstico com as velhas desculpas: ela engravidou para tirar a grana dele, ou ela se vestia como uma puta, ou ela se comportava como uma puta, como se isso, ainda que tivesse acontecido, justificasse o fato de a mulher de ser tratada de forma abusiva e violenta.

Mulheres não mantêm relações, nem engravidam sozinhas. Assim como não casam, nem causam um divórcio sem o consentimento do homem que é casado. É absurdo e digno de revolta que continuemos a perpetuar as ações violentas dos homens que escolhemos como nossos companheiros, assim como lamentável que algumas de nós decida manter a postura conivente e subserviente, que no seu caso se agrava por ser baseada em uma fantasia hollywodiana.

Você ouve todos os insultos e todo o desrepeito que ele direcionou a ela ao telefone, mas prefere ignorar o fato de que aquela é a voz dele, é um ato dele, é uma escolha dele, decidindo acreditar na sua fantasia.

Você tira toda a responsabilidade dele, justifica a barbárie dele, e tira dela qualquer benefício de dúvida e ainda questiona a posição de vítima.

Você como boa seguidora do espiritismo sabe tão bem quanto eu que existe o louvável livre arbítrio a ser desfrutado por nós. Não caíamos nas armadilhas machistas, primitivas e paternalistas que sempre encontram desculpas para os abusos masculinos, assim como as armadilhas do dinheiro e do sucesso, que nos impedem de enxergar, denunciar, e punir pessoas que desfrutam de status, fortuna e fama.

Quanto ao “casamento duradouro dele”, “o relacionamento pacífico”, “o divórcio mais calmo de Hollywood” e a ele “nunca ter agido de maneira violenta com Robyn”: lembre-se e reflita sobre o fato de que você nunca cruzou com esse homem na vida real, que você não o conhece e que tudo o que você julga saber sobre a vida dele é baseado em revistas de fofocas escritas por terceiros. O que é muito diferente de um aúdio com a voz do seu mega-star chamando a namorada de puta, vadia, e tantas ouras coisas. Talvez isso te faça acordar para o fato de que você escreve como se fosse confidente do ex-casal e principalmente dele.

Repito: o que está em questão não é quão bom ou ruim Mel Gibson é, ou deixa de ser, mas sim o fato de que esse áudio prova que ele foi abusivo e é isso que deve ser combatido, em vez de ser apoiado, por fãs de carteirinha.

Denuncie o abuso e a violência doméstica: disque 100.

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