quarta-feira, outubro 21, 2009

AS BOAS MULHERES DO AFEGANISTÃO




"Algumas coisas horríveis são repetidas tantas vezes que nos deixam insensíveis. Bombas no Iraque e no Afeganistão, por exemplo. Uma bomba que causa a morte de dez pessoas no Afeganistão já virou "pé de página", dada a frequência desse atentado. Eu confesso que cheguei aqui um pouco anestesiada em relação à situação das mulheres no Afeganistão. A gente ouve falar tanto sobre a burca, e o problema das afegãs que não podem estudar, que acaba se acostumando.

Mas nada como um banho de realidade. Ir a abrigos de mulheres vítimas de violência foi uma experiência, digamos, iluminadora. Conversar com essas mulheres nos faz ver como somos privilegiadas - podemos trabalhar, estudar, podemos não trabalhar por opção própria, se acharmos melhor só cuidar dos filhos, e podemos até cobrir uma guerra - vi muitas fotógrafas de guerra e algumas jornalistas ocidentais aqui no Afeganistão.

Antes de tudo, podemos ir na delegacia de mulheres ou simplesmente pedir o divórcio se o marido nos espancar regularmente. Isso parece óbvio, mas no Afeganistão, não é.

A situação da mulher afegã é muito mais horrível do que nós imaginamos. As meninas crescem achando que a violência é um direito natural do homem, e a subserviência, uma qualidade da mulher.

Cerca de 80% das mulheres afegãs são submetidas a casamentos forçados – e 57% casam antes de completar 16 anos, a idade mínima determinada por lei.

Uma pesquisa da entidade Women and Children Legal Research mostra que 17,2% dos casamentos forçados são motivados pelo Baad, uma tradição tribal que é ilegal. Para compensar famílias por algum dano, as jirgas, os tribunais dos líderes tribais dos vilarejos, determinam que o causador do dano dê sua filha à família do lesado como pagamento, ou Baad.Por exemplo, se um irmão ou pai comete um assassinato, a jirga se reúne e pode determinar que a irmã ou filha do assassino seja dada à família do assassinado.


Em outros 16,6% dos casos de casamento forçado, a filha é dada como pagamento de dívidas. Muitas vezes o pai é viciado em ópio, e dá a filha para pagar dívida de drogas. Outros 30,3% dos casamentos forçados são Shughar, ou troca de noivas – as famílias fazem intercâmbio de suas filhas. Isso é comum porque os maridos sempre precisam pagar para “comprar” uma noiva – no Norte, chega a ser US$ 5 mil.No Shughar, não há dinheiro envolvido, por isso muitas famílias preferem.

De acordo com o mesmo estudo, “Violência contra mulheres No Afeganistão”, de 2008, 58% das mulheres em casamentos forçados são espancadas pelos marido ou sofrem algum tipo de violência. Dessas, 12,5% contam já ter tido algum membro fraturado e 6,6% ficaram com deficiência física permanente.

Grande parte das mulheres é analfabeta e casa-se ainda na infância. Segundo a pesquisa, 38,2% das noivas têm entre 11 e 15 anos e 46,9% têm entre 16 e 20 anos. De acordo com a legislação afegã, só mulheres com mais de 16 anos e homens com mais de 18 podem se casar.

Na maioria das famílias, as mulheres precisam da autorização dos maridos para desempenharem qualquer tipo de atividade. Por isso, sem poder ter um emprego ou sair de casa, a maioria fica isolada e acaba não denunciando agressões dos maridos.

Divórcio não é uma opção. Em 2006, o último ano com dados disponíveis, houve 158 divórcios no país inteiro. As mulheres precisam da aprovação dos homens para se divorciar (o inverso não se aplica). E para isso, eles costumam exigir a guarda dos filhos e algum pagamento em dinheiro.

Em um país devastado por 30 anos de guerra, está é a situação de cerca de 11,5 milhões de mulheres - metade da população do país - que são invisíveis e não têm direitos."


Patrícia Campos Mello

(Correspondente do Estadão em Washington)

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